Torá em Português

Parashat Devarim

Yes, We Can - Sim Nós Podemos

Tradução de español: David Abreu

Os versos iniciais da Parashat Devarim levantam uma questão interessante para nós.

Sefer Devarim - o quinto e último livro da Torá - contém os discursos de despedida de Moshe antes de sua morte.

A Torá (Devarim 1, 3) atesta que a despedida teve seu ponto de partida em Rosh Chodesh Shevat (o primeiro dia do décimo primeiro mês, segundo a opinião bíblica). De acordo com a tradição hebraica, Moshe morreu no dia 7 do mês de Adar. Portanto, aqueles discursos de Moshe foram tecidos juntos ao longo de trinta e seis dias (não é por acaso que a primeira palavra de Parashat Devarim – Elu (אלו) - também totaliza 36 na guematria).

Como é possível que Moshe - um homem "lento de fala" e "incircunciso de lábios" - conseguiu falar por trinta e seis dias seguidos?

De acordo com o Guinness Book of Records, o discurso mais longo da história foi feito pelo indiano Krishna Menon à ONU em 1957, defendendo a posição de seu país no território da Caxemira por aproximadamente oito horas.

Estamos falando de um homem que se despede de seu povo com um discurso de 36 dias! Isso é algo extraordinário, mas ainda mais incrível é quem fala - segundo a Torá - um gago!

A este respeito, existem duas opiniões divergentes em Devarim Rabbah.

O primeiro deles sugere que não havia impedimento em Moisés.

O midrash compara Moshe a um comerciante que vendia tecido de lã roxa.

Um rei veio e perguntou ao comerciante a natureza de sua mercadoria. O homem respondeu que não vendia nenhuma mercadoria. “Como é possível?!” Perguntou o rei. "Ouvi sua voz dizendo que vendia tecidos de lã roxa ...". "É verdade", disse o comerciante. "Eu vendo tecidos de lã roxa, mas para Vossa Alteza é como se não fosse nada."

Assim disse Moshe: “Diante de D'us - que criou a boca do homem -“ Eu não sou homem de palavras.” Não serei assim diante de Israel (Devarim Rabbah 1, 7).

O Midrash aqui sugere que a limitação de Moshe não era objetiva. Só diante de D'us ele se sentiu incapaz de falar. Diante de Israel, ele não sentia nenhuma limitação.

No entanto, o Midrash também representa uma opinião antágônica a esse comentário.

De acordo com um segundo comentário no Devarim Rabbah, a gagueira de Moshe era real e só foi curada após a entrega da Torá (Devarim Rabba 1, 1).

Desejo oferecer uma terceira abordagem a esta questão hoje.

Minha opinião é que Moshe superou sua gagueira ao começar sua missão junto ao Faraó.

Todo homem está carregado de limitações. Porém, quem está convencido de sua missão neste mundo, consegue superá-las.

Estamos na véspera de Tisha BeAv, o dia em que lembraremos a destruição do Primeiro e do Segundo Templo em Jerusalém.

Muito já foi escrito sobre os pecados que levaram a essas tragédias.

Diz-se que o Primeiro Templo foi destruído pelo pecado de derramamento de sangue, idolatria e relações sexuais proibidas. Diz-se que o segundo foi destruído pelo pecado do ódio gratuito (Yoma 9b).

No entanto, de acordo com o Talmud, essas tragédias foram decretadas no mesmo dia em que os espias voltaram ao acampamento de Israel após sua jornada pela Terra Prometida.

A história dos meraglim (espias) também é lida todos os anos no Shabat antes de Tisha BeAv.

Quarenta anos depois desse evento, Moshe lembra que aqueles homens fizeram o coração de Israel derreter (Devarim 1, 28). Aquela terra de sonhos foi transformada, do dia para a noite, em uma terra de pesadelo.

Os gigantes e as cidades fortificadas acabaram dando o tom do seu relato: “Não poderemos subir contra o povo, porque eles são mais fortes do que nós”, disseram (BeMidbar 13, 31).

Porém, o aspecto mais sério desse triste episódio é que aqueles espiões acabaram espalhando seu pessimismo por todo Israel, transformando o grito daquela noite em um grito que atravessaria gerações (Taanit 29a).

O que foi que produziu -finalmente- a destruição dos Templos de Jerusalém?

Não apenas ódio gratuito, relações sexuais proibidas, idolatria ou derramamento de sangue. Esses foram os gatilhos.

Os templos de Jerusalém começaram a ser destruídos naquele momento em que um povo - o nosso - se julgava impotente para cumprir a sua missão.

O verdadeiro motivo dessas tragédias foi a percepção errada de "não seremos capazes". Os templos de Jerusalém começaram a ser destruídos naquela mesma noite em que um povo baixou os braços.

Talvez esta seja uma das mensagens mais poderosas que Moshe Rabenu nos deixou.

Na hora da verdade, mesmo aquele homem que se percebia limitado e sem o poder da fala, mostrou que sim, que podia.

Finalmente, não há obstáculo que possa ser imposto diante da força de vontade.