Torá em Português

Parashat Vaigash

Pastores Abomináveis

Tradução de español: David Abreu

O maror, além de ser amargo e nos lembrar do amargor da escravidão em Mitzraim (Egito), tem uma peculiaridade: se sentirmos a ponta do maror veremos que está mole, mas depois endurece ao chegar ao caule.

O caminho dos filhos de Israel em Mitzraim seguiu o mesmo caminho do maror. Os filhos de Yaakov foram recebidos no Egito como convidados oficiais. VeEtná Lachem Et Tuv Eretz Mitzraim VeIjlu Et Jelev HaAretz (Bereshit 45, 18) "Eu lhe darei a melhor terra do Egito para comer a gordura da terra." Algumas décadas depois, esses "hóspedes do estado" se tornariam escravos do faraó.

Assim como o maror, a princípio foi uma realidade "branda" que acabou levando à "dureza" da servidão.

Essa terra - "a melhor terra" nas palavras do Faraó - era a terra de Goshen. Esta terra era sem dúvida um lugar bom, um lugar fértil onde não faltaria comida. Mas também é verdade que a terra de Goshen foi um pouco removida da "ação". Esse território estava situado nos "subúrbios" do império e estava longe da maioria das cidades egípcias.

Por que os hebreus foram designados a um lugar tão remoto?

A Torá nos diz: Ki Toavat Mitzraim Kol Roé Tzon (Bereshit 46, 34). Pastores de ovelhas eram uma abominação para os egípcios.

Abraham Ibn Ezra explica que os egípcios eram vegetarianos naquela época e não permitiriam que um homem, de forma alguma, comesse produtos de origem animal em seu ambiente.

Os filhos de Israel eram apreciados no Egito, mas sua ocupação não era tanto.

Algumas décadas depois, os mesmos egípcios que estavam vigilantes quanto à integridade dos animais estavam jogando crianças hebréias no Nilo.

Isso não foi abominável.

Ao ler o comentário de Ibn Ezra, a imagem do nazismo me veio à mente.

Um dos maiores paradoxos da história é que o regime nazista foi um dos precursores das políticas estatais em favor da ecologia e do meio ambiente.

Em 1933, o nazismo aprovou a Lei de Proteção aos Animais. Um ano depois, a Lei de Caça do Reich foi aprovada e em 1935 a Lei de Proteção à Natureza entrou em vigor.

Naquela época, ninguém imaginava que uma "Lei de Proteção contra o Nazismo" deveria ser aprovada. Em meados da década de 1930, o mundo não sabia que tal regime tão propenso ao amor pela natureza seria o protagonista do capítulo mais terrível da história da humanidade.

Machucar a natureza era abominável (e sem dúvida é!). O problema é que para o Nazismo os crematórios não eram. E o próprio Hitler - Imach Shemo - era vegetariano.

Muitas vezes, esse tipo de vigília tem um lado negro.

Foi o que aconteceu com os egípcios e sua "sensibilidade" e "humanismo". Os pastores eram abomináveis, mas uma vida humana valia alguns centavos.