Torá em Português

Old Hebrew Prayer Book

Parashat Shemini

O defeito da Cegonha

Tradução de español: David Abreu

Uma extensa seção da Parashat Shemini que lemos neste Shabat trata das leis da cashrut, em geral, e da classificação de animais impuros em particular.

Segundo o que nos é dito, Adão - o primeiro homem - observou em profundidade a essência de cada animal e chamou cada um pelo nome. E algo maravilhoso acontece na língua hebraica sobre isso.

O burro (Chamor), por exemplo, é caracterizado por transportar cargas pesadas. O nome "Chamor" deriva da raiz hebraica "Chomer" (matéria). O burro representa o universo da matéria, o mundo físico.

O cachorro (Kelev) é outro bom exemplo nesse sentido. Este animal é caracterizado por seu coração generoso, e de fato seu nome contém a palavra "Lev" (coração). Um terceiro exemplo - e ao mesmo tempo muito interessante - tem a ver com o porco (Chazir). Nossos rabinos dizem que o nome "Chazir" (Porco) vem da raiz hebraica "CH.Z.R." (voltar) pois no futuro este animal se tornará ruminante e sua ingestão será permitida novamente (Ohr HaChaim para Vaikrá 11, 7).

E a cegonha (Chasidá)?

O Gaon de Vilna explica que a cegonha se chama Chasidá (Piedosa), pois sempre mergulha na água após o acasalamento. RaSHI, por sua vez, explica que assim o chama por causa da piedade que demonstra ao compartilhar a comida com seus pares.

Se for assim ... por que a Torá qualifica a cegonha como impura? Não tem sentido! Existe algo mais kosher do que praticar atos piedosos?

O Rabino Yitzchak Meir de Gur, traz uma excelente observação sobre o assunto. A piedade e generosidade da cegonha limita-se apenas ao seu círculo imediato e ignora aqueles que não fazem parte do seu pequeno grupo. Este não é o tipo de piedade em que a tradição judaica acredita. Por isso, o pássaro está impuro. O Rabino Yitzchak Meir de Gur diz que piedade e retidão não são necessariamente a mesma coisa.

Na década de 1990, fui capelão judeu na prisão de Villa Devoto, a principal penitenciária da cidade de Buenos Aires. Semanalmente - por quase três anos - visitei os internos judeus, dando-lhes apoio espiritual.

Uma das maiores lições que guardo dessa experiência é que a lealdade e a generosidade do homem não conhecem limites, mesmo em situações como essas.

Lembro-me de uma vez que cheguei à prisão em Chol HaMoed Pesach. Tínhamos uma refeição festiva marcada com os prisioneiros judeus, para a qual havia levado matzot e comidas típicas de Pessach preparadas especialmente para a ocasião.

No entanto, ao chegar, fui informado de que um dos prisioneiros estava em greve de fome. Nenhum dos presos queria comer como sinal de identificação com a luta do amigo.

Possivelmente, haviam se passado meses (senão anos!) Que não haviam participado de tal banquete na prisão. Eles eram criminosos, que roubaram, trapacearam e até assassinaram. Muitos deles até mostraram sinais de arrependimento. No entanto, eles sabiam ser compassivos e leais a seus colegas em desgraça.

Há algum tempo li um artigo interessante sobre a vida dos morcegos.

Um morcego de sucesso na busca por sua "vítima" suga uma quantidade de sangue que representa de 50% a 100% de seu peso corporal (e sua natureza exige essa quantidade todas as noites). Porém, se ao retornar ao ninho encontrar um parceiro faminto, ele dará parte de "seu" sangue até que seu parceiro encontre sua própria vítima.

É um instinto básico para sua sobrevivência. E mesmo com toda aquela lealdade e compaixão a reboque, o morcego permanecerá cruel e sanguinário.

Acontece que retidão e piedade não são a mesma coisa. Essa é a falha da cegonha.