Torá em Português

Parashat Noah

No Alto da Torre

Tradução de español: David Abreu

Cada novo olé (imigrante) que chega a Israel sofre algum episódio de natureza linguística. É inevitável. Você entra em uma nova cultura, na qual a barreira do idioma é apenas um elo em uma longa cadeia de diferenças. Gestos, tons ao falar e comportamentos diferenciados, fazem com que a integração definitiva ao país se prolongue por anos. Pode nunca acabar.

Lembro-me de uma história que foi contada no Merkaz Klitá (Centro de Absorção), na cidade de Raanana, por volta de 2002.

Um dos primeiros passos que todo olé deve cumprir ao chegar a Israel é aderir ao plano de saúde. Alguns olim - com um hebraico muito básico - caminhavam em direção aos escritórios do seguro saúde. Não sabiam o endereço exato do local e resolveram consultar um policial que estava de passagem. O policial fardado percebeu que eram novos imigrantes e, gesticulando com as mãos, disse-lhes que o escritório do seguro de saúde era "BaRechov Ha-Makvil" (na rua paralela à avenida por onde passavam). Estes olim começaram a olhar nas placas de rua para uma rua chamada "HaMakvil". Quando chegaram à rua seguinte, perceberam que o nome da rua não correspondia ao nome que procuravam. Novamente eles pararam um transeunte e perguntaram-lhe: "Onde está 'Rechov Ha-Makvil'?" Este homem, também gesticulando com as mãos, apontou que o "Rechov HaMakvil" era a rua paralela àquela em que eles estavam caminhando. A viagem, finalmente, durou mais de duas horas; sempre o "Rechov Ha-Makvil" estará a um quarteirão de distância.

Viver em uma sociedade multicultural e multilíngue pode transformar nosso cotidiano em uma aventura - no melhor dos casos - ou em um pesadelo, no pior dos casos.

Lembro-me daquele olé que, recém-chegado ao país, tinha vontade de comer caqui. A única que falava hebraico era sua filha de 8 anos. Foi assim pediu que ela entrasse na mercearia e comprasse um quilo de caqui. A menina, orgulhosa de se comunicar pela primeira vez em hebraico, foi até a fruteira e disse: "Aní Rotzá Kaki" ("Eu quero caqui"). A fruteira apontou para a porta do banheiro. "Caque", em hebraico, diz-se "afarsemón" …

Quantos papelões e maus momentos teriam sido evitados se não fosse pela Torre de Babel?

Todos esses mal-entendidos idiomáticos tiveram sua origem naquela geração chamada Dor Ha-Palagá (A geração da divisão) que decidiu construir aquela torre.

Qual foi o pecado dessas pessoas? Essa geração, finalmente, só queria se aproximar de D'us à sua própria maneira. Talvez a forma não fosse ideal, mas não parece ser um pecado tão grave querer construir uma torre para se aproximar do céu.

O Prof. Ishaiahu Leibovitz Z "L, explica:

Entendo que o decreto de dispersão (daquela geração) não foi um castigo, mas sim uma emenda a favor da humanidade. A mensagem fundamental da seção Torre de Babel não tem nada a ver com a construção da torre em si. Em vez disso, tem a ver com o que ele diz no início da seção: Que toda a terra - a humanidade renovada pós-dilúvio - tinha uma "língua única e palavras semelhantes" (Beresheet 11, 1). Após o fracasso na construção da torre, surgiram diferentes linguagens e, portanto, diferentes palavras. Entendo que a base do pecado da "Geração da Divisão" consiste em ter desejado concentrar artificialmente todos os seus membros para sustentar a realidade de "uma só língua e palavras semelhantes", o que nos termos modernos costumamos chamar "Totalitarismo".

O prof. Leibovitz Z"L descreve uma sociedade em que o indivíduo não tem lugar, mas é prisioneiro de um modelo que o ultrapassa, controlando sua vida e sua forma de expressão. Um modelo em que a diversidade é pouco menos que um palavrão.

O povo judeu e o moderno Estado de Israel se tornaram enormemente enriquecidos pelo multiculturalismo. Ao longo de nossas diásporas, aprendemos a sabedoria babilônica, a escatologia persa, a filosofia grega, a matemática árabe e a academia alemã e americana.

E mesmo que não tenhamos aprendido (ainda) a preparar churrasco como os argentinos, podemos assegurar que o multiculturalismo, o contato com diferentes sociedades, com diferentes línguas e diferentes palavras, só nos beneficiou.

Possivelmente, sem essas diásporas, ainda estaríamos sentados em tendas como nossos ancestrais fizeram.