Torá em Português

Parashat Shemot

Mestre e Senhor

Tradução de español: David Abreu

Em 1922, Martín Búber escreveu um dos livros centrais do pensamento judaico contemporâneo chamado ‘Eu e Você’.

Nesse livro, Búber ensina que existem dois tipos de relações entre as pessoas: A relação EU-ISSO é quando tomamos o outro como objeto (uma laranja por exemplo, da qual podemos espremer e beber seu suco).

Mas existe uma outra relação - diz Búber - que é a relação EU-VOCÊ. Quando entramos no relacionamento Eu-Você, o outro deixa de ser uma coisa entre as coisas, deixa de ser um objeto ... Um começa a se vincular com o coração e a alma do outro.

Sentimo-nos mais confortáveis ​​no mundo do ISSO porque é um mundo que oferece segurança, satisfação e não exige compromissos.

A proposta de Búber não é uma mera dissertação filosófica. Ilumina e nos faz refletir sobre o universo das nossas próprias relações. Não só nos faz pensar sobre o tipo de vínculo que temos com nossos filhos, pais, amigos e parceiros, mas também com nossos empregos e também - porque não - com nosso país.

Quando o Faraó decide que deve ser imposto um limite ao crescimento populacional dos filhos de Israel, ele chama as parteiras hebraicas e diz-lhes: 'Quando as mulheres hebraicas derem à luz, vocês vão olhar os sexo do recém-nascido; se for menino você vai matá-lo, se for menina deixe-a viver '(Shemot 1, 16).

Para o tirano, seus súditos são meros objetos inanimados, um número, um bem, um maço de dólares. Toda a história da escravidão no Egito começa com o medo do Faraó de perder aquela massa de trabalho livre representada pelos homens hebreus.

Medo de perder ISSO, como diria Búber.

Eu li há alguns dias porque Búber escreveu o livro ‘Eu e Você’ . Assim que se fixou na Alemanha, Búber recebeu em seu escritório a visita de um estudante que acabara de ser convocado para servir no exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial.

O jovem tinha um dilema terrível: por um lado, ele era um alemão orgulhoso e patriota e achava que deveria servir ao seu país. Mas, por outro lado, ele era um pacifista obstinado e temia ser morto na frente de batalha.

Foi então ter com Búber e perguntou-lhe o que devia fazer: devia servir ao seu país correndo o risco de morrer na linha da frente ou devia apresentar uma objecção de consciência e deixar outra pessoa - talvez morrer em seu lugar?

Búber, quando o jovem entrou em seu gabinete, estava imerso em reflexão teológica. Ele olhou para o jovem e disse algo como: 'Terrível dilema; a resposta está em suas mãos. '

Poucos dias depois, o jovem atormentado por suas dúvidas - e pela falta de conselho de seu professor - tirou a própria vida.

Búber sentiu tanta culpa por ter tratado esse jovem como um estorvo ao invés de vê-lo como uma alma em dor que decidiu transformar esse sentimento de culpa nesta obra chamada ‘Eu e Você’.

Essa ideia de "eu e você" de Búber pode nos ajudar a entender a natureza da escravidão dos filhos de Israel no Egito, mas acima de tudo, nos ajuda a entender por que aquela geração nunca poderia confiar naquele D'us redentor. Acontece que quando alguém trata o outro como algo, a alma pode enferrujar. O coração daquela geração, por tanto ser ISSO, havia se atrofiado. Apesar de todos os milagres que aquela geração testemunhou.

Uma vez que perguntaram ao Búber ... você só consegue viver no mundo do ISSO?

E Búber respondeu: ‘O homem não pode viver sem o ISSO. Mas quem vive só com o ISSO não é homem. ”