Torá em Português

Parashat Vaetchanan

Equilíbrio Auditivo

Tradução de español: David Abreu

A Parashá desta semana contém um dos pilares fundamentais da fé judaica: o Shemá Israel (Ouve Israel). É por isso que hoje quero me referir à centralidade do sentido da audição na religião judaica.

Nós, judeus, temos nossas vidas repletas de lembretes visuais e auditivos. Para restringir o visual, podemos mencionar, entre outros, o tefilin, a mezuzá, o tzitzit, as velas de Hanukkah. Entre os auditivos, talvez como exemplo de destaque, podemos citar o shofar. Esses lembretes têm a mesma função de uma bússola em alto mar. São eles que nos mostram o caminho e nos lembram quem somos e para onde vamos.

No entanto, nós judeus sempre confiamos em ouvir mais do que em nossos olhos. É ouvido para transmitir, e quando o ouvido falha, o povo judeu caminha no limite.

Um exemplo muito gráfico aparece no livro de BeMidbar. Lá, somos informados sobre os sinais que os filhos de Israel tiveram durante sua marcha pelo deserto. Uma nuvem marcou o local onde eles deveriam acampar e duas trombetas de prata entalhadas ajudaram a convocar a comunidade na hora de partir. (ver BeMidvar 9: 22-10: 2)

O Rabino W. Gunther Plaut comenta esta passagem bíblica: A nuvem era um lembrete visual, enquanto as trombetas eram um lembrete auditivo da presença de D'us. De alguma forma, o instinto judeu nunca confiou no testemunho de seus olhos. Moshe executou sinais, e estes puderam ser copiados; não suas palavras. No Sinai, a ênfase não estava tanto no que as pessoas viam, mas no que as pessoas ouviam. A verdadeira chave para entrar no mundo do Judaísmo não é Reé (Olhar), mas Shemá (Ouvir). A nuvem se foi, mas o som do Shofar permanece.

De certa forma, o Rabino parece dizer, se o povo judeu perde a capacidade de ouvir, fica surdo ... mas também fica cego! Aí a bússola está perdida.

Não por acaso, o centro do equilíbrio humano fica perto dos ouvidos. E a língua hebraica, com sua sabedoria usual, também nos ensina sobre isso: a palavra ‘Equilíbrio’ é dita em hebraico ‘Izun’, uma palavra que contém a mesma raiz linguística da palavra ‘Ozen’ (ouvido).

O equilíbrio e o futuro do povo de Israel estão em manter a capacidade milenar de exercer o Shemá, de ouvir, transmitir e ensinar esse elo que vem antes de nós.