Torá em Português

Parashat Chaiei Sara

Duas Vidas em Uma

Tradução de español: David Abreu

A Parashá desta semana começa dizendo: "E foi a vida de Sara, cem anos e vinte anos e sete anos, os anos da vida de Sara" (Bereshit 23: 1).

No entanto, "Shnei Chaiei Sara" (traduzido como "Os anos de vida de Sara"), pode ser lido como 'As duas vidas de Sara'.

Por que pensar que Sara tinha duas vidas?

Não estamos falando aqui de uma 'vida dupla' – D’us nos livre e nos guarde - como geralmente entendemos 'vida dupla' em nosso mundo contemporâneo, onde este conceito é sinônimo de marginalidade e engano .

Acontece que, embora nossa vida seja uma, existem certas voltas em nossa existência que mudam radicalmente nossa percepção do mundo.

O nascimento de uma criança, a chegada do amor. Ou um revés financeiro, ou uma perda de uma pessoa querida.

Todos nós temos algo que nos mudou. Todos nós temos algo que nos fez crescer e amadurecer, mesmo quando foi por meio de golpes e dores.

Muitas vidas coexistem em uma vida, e é a maneira como enfrentamos essas mudanças que definirá o curso para este novo capítulo.

Talvez a palavra inicial desta Parashá seja uma boa pista para saber quais foram as duas vidas de Sara: VaIihú.

O autor do livro "Minchá Belulá" nos faz notar que a palavra 'VaIhiú' ('E foram', em português) tem um valor numérico igual a trinta e sete (6, 10, 5, 10, 6).

Se Sara viveu cento e vinte e sete anos e subtrairmos trinta e sete, teremos noventa anos. Aos noventa anos, Sara deu à luz a seu único filho, nosso patriarca Yitzchak (Isaque).

Uma vida ou duas vidas, dependendo de como se vê. Bem que poderíamos dizer que foi uma vida de cento e vinte e sete anos, ou que foi uma vida de noventa e outra de trinta e sete.

Noventa anos de sofrimento e orações pelo filho que a natureza lhe negou e trinta e sete anos de realização e satisfação pelo filho que D'us lhe deu.

Conta uma história de que um homem caminhava pela floresta e se deparou com um cemitério. Lápides velhas e dilapidadas, que mal permitiam a leitura das inscrições na pedra.

Porém, o homem conseguiu ler os nomes e a idade dos falecidos e percebeu com surpresa que a idade dos que ali estavam não passava de onze anos e o mais estranho é que o tempo vivido se media em anos, meses, semanas e dias.

O homem comoveu-se e pensando que estava em frente a um cemitério infantil, aproximou-se do povoado vizinho para perguntar que mal estranho afligia aquela população que havia devastado tantas crianças.

"Eles não são crianças", respondeu o ancião do lugar. 'E aqui não há nenhum mal estranho que nos assombra’.

Acontece que, por gerações, mantivemos um lindo costume. Cada criança, aos quinze anos, recebe um caderninho como este que uso no pescoço. E é tradição entre nós que a partir daí, cada vez que se desfruta de algo intensamente, abrem o caderno e escrevem nele:

À esquerda, o que foi desfrutado, à direita, quanto tempo durou a alegria.

Ele conheceu sua esposa e se apaixonou por ela. Quanto tempo durou essa enorme paixão e o prazer de conhecê-la? Uma semana? Duas? Três semanas e meia?

E a gravidez ou o nascimento do primeiro filho? E a viagem mais desejada? E o encontro com o irmão que volta de um país distante?

Por quanto tempo você gostou dessas situações?

Dias? Semanas?

Assim, anotamos no caderno cada momento que desfrutamos, cada momento de felicidade.

Quando alguém morre, é nosso costume abrir o caderno e somar o tempo que ele desfrutou, para escrever no túmulo, porque ISSO é para nós, o único tempo verdadeiro vivido.

Sara viveu cento e vinte e sete anos, de fé, coragem e paixão.

Duas vidas em uma. Em sua juventude com a experiência da idade adulta superando a dor pelo filho que não chegou, e na idade adulta com o vontade da juventude, criando um filho quando deveria estar mimando um neto.

Tome o seu exemplo esta semana em que lemos sobre sua morte, para nos inspirar em sua força diante das adversidades e em seu fogo para enfrentar as mudanças a que a vida nos submete.