Torá em Português

Parashat Vaetchanan

Além do Monte

Tradução de español: David Abreu

A revelação do Sinai é o marco mais relevante na história do povo hebreu.

Desde então, nada mais foi o mesmo.

Não estou falando apenas de um ponto de vista sociológico. Todos nós sabemos que, a partir de então, aquelas tribos errantes se transformaram em um povo.

Falo de um ponto de vista estritamente místico.

A revelação do Monte Sinai foi a primeira vez que todos os filhos de Israel - naquela geração e também nas gerações futuras - apreciaram a santidade e magnificência de D'us em todo o seu esplendor.

Foi lá que - pela primeira e única vez - fomos expostos à santidade de D'us em seu melhor.

RaSHI explica este fenômeno em seu comentário a Parashat Vaetchanan: "Desde então, D'us não se revelou em público assim novamente" (comentário a Devarim 5, 19). E quem consegue experimentar tamanha exposição à santidade, torna-se - de fato - um novo homem.

Há um poderoso relato talmúdico referindo-se à destruição do Templo em Jerusalém.

Diz-se que quando os romanos entraram no Segundo Templo em Jerusalém, eles queriam que um judeu iniciasse o saque. Para esse fim, eles chamaram um judeu chamado Yosef Meshita e prometeram que ele ficaria com o que quisesse do saque.

Yosef Meshita entrou no Templo e tirou o candelabro de ouro.

Quando os romanos viram o que aquele judeu havia escolhido, consideraram aquele candelabro muito valioso para um homem tão simples. Foi então que ele foi convidado a entrar no Templo pela segunda vez.

Na segunda vez, Yosef Meshita se recusou a entrar. De acordo com o rabino Pinchas naquele midrash, os romanos prometeram compensá-lo com a cobrança de impostos de três anos, e ele continuou a recusar.

Os romanos viram sua recusa com olhos muito ruins e o condenaram a uma morte de tormentos.

Eles começaram a torturá-lo e Yosef gritou: "Ai de mim, eu irritei meu Criador!" (Bereshit Rabbah 65, 22).

O que foi que produziu tal mudança na personalidade desse homem? Como é possível que aquele que decidiu saquear o Templo sagrado sem remorso, tenha mudado de opinião de forma tão radical?

O Rabino de Ponivetz diz que o que mudou Yosef Meshita foi precisamente sua exposição à santidade. O contacto com aquele lugar e com aquele candelabro transformou-o num novo homem.

A exposição à santidade é a razão pela qual respeitosamente colocamos instrumentos sagrados em genizot (caixa onde se guarda objetos sagrados sem uso para não joga-los fora).

É óbvio por que não jogamos fora uma mezuzah ou um par de tefilin fora de uso. Mas por que não fazer isso com as caixas que continham aqueles rolos minúsculos?

Acontece que uma caixa comum de metal ou plástico é "infectada" pela santidade do rolo que continha em seu seio. Da mesma forma que um pedaço de pano recebe um caráter sagrado quando cobre aquela Arca em que os rolos sagrados da Torá estão depositados.

De uma perspectiva mística, poderíamos dizer que a revelação do Monte Sinai deu aos filhos de Israel aquela santidade extra que só pode ser conferida por aquele que está exposto a tal Revelação.

Israel acampou na borda daquela montanha por quase um ano (veja BeMidbar 10, 11 e o comentário de RaSHI lá).

É por isso que é especialmente notável que D'us - praticamente - expulse o povo de Israel de lá em Parashat Vaetchanan.

“O Eterno, nosso Deus, falou-nos em Chorev, dizendo: Já permanecestes bastante nesta montanha” (Devarim 1, 6).

Normalmente, o sinal que os filhos de Israel recebiam para marchar era o levantamento das nuvens de glória. Por que D'us - além disso - deveria usar tal linguagem para convidá-los a reiniciar a marcha?

A resposta é que é difícil abandonar a santidade depois de nos expor a ela. A Torá sugere que os filhos de Israel tiveram que partir de lá, praticamente, à força.

No entanto, tal exposição é um meio e não um fim em si mesma. Quem está acampando nas margens do Monte Sinai no momento de receber a Torá pode cometer o erro de pensar que o mundo inteiro é o Sinai.

Algo assim aconteceu comigo depois de terminar meus estudos rabínicos em Israel.

Por dois anos e meio, vivi "à beira do Monte Sinai", em um ambiente sagrado de Torá e mitzvot. Ninguém quer sair do mar quando a água está quente. Mas era hora de partir.

Uma de minhas primeiras experiências rabínicas foi em uma pequena congregação na América Central. Lá, depois de acampar nas margens do Sinai por longos meses, encontrei congregantes que mal conseguiam reconhecer as letras hebraicas.

Lá eu vim a entender que minha experiência "à beira do Sinai" não era nada mais do que um meio de transmitir uma pequena porção dessa santidade para aqueles judeus sedentos de Torá.

“Você está nesta montanha há muito tempo”, diz D'us ao povo.

A reação de D'us meses após o recebimento da Torá não tem a intenção de ser mais do que um aviso.

Ai daquele que pensa que o mundo inteiro é o Sinai!

Pelo contrário. O desafio está além do Sinai, quando conseguimos levar as centelhas daquela santidade a que fomos expostos até os quatro cantos da terra.